quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

17º CAPÍTULO


SEGUNDA-FEIRA, 10 DE JANEIRO DE 2011


"CADA RODA COM SEU FUSO, CADA TERRA COM SEU USO"


         Todos os povos da Terra têm a sua cultura e cultura é uma linguagem que não se escreve em nenhum manual de ética, porém, que se vive no dia-a- dia e que se expressa através de diversas formas como: a música, a maneira de vestir-se, de alimentar-se, divertir-se, enfim, no comportamento de cada povo. Muitas vezes estas culturas são tão diferentes uma das outras, que precisamos da ajuda de Deus, sabedoria e uma prévia preparação transcultural para não sofrermos ou causarmos um “choque cultural”.  A primeira coisa que o candidado a obra missionária deve entender é que o Evangelho da Graça que pregamos é transcultural, ou seja, é acessível a todas as culturas e logicamente, nós devemos respeitá-las.
            Com muito respeito, queremos compartilhar com o nosso leitor um pouco dos costumes em algumas regiões da Bolívia, onde trabalhamos por 17 anos sentindo “dores como de parto” para gerar filhos espirituais. Foi nesse país, com sua beleza e tradições, que nasceram as nossas duas últimas filhas, Kézia e Kareen.
                       1 – CHICHA O QUE É?
E’ uma bebida feita do milho, que é previamente pilado, depois, levado à boca para ensalivá-lo. Em seguida é lançado (cuspido) no tacho e só então é levado ao fogo para ferver. Depois de bem fervido é coado e guardado em vasilhas de barro para fermentar. Quanto mais dias fermentando, mais saborosa e embriagante fica. O processo do ensalivamento é para tornar a chicha doce porque, segundo eles, a saliva é adocicada e também ajuda na fermentação.
Quando se faz uma visita a alguma família, o dono da casa serve logo a “chicha”, que substitue o nosso famoso cafezinho. Essa chicha, antes da fermentação, é usada como um refresco, qualquer pessoa pode tomar, tem um sabor gostoso, porém a aparência não é das melhores, pois é espessa e lisa.
Uma certa vez, quando viajávamos de barco, parando em várias casas, em visita aos novos convertidos e também evangelizando, tomamos tanta chicha nas diversas casas, que já não suportávamos mais. Minha esposa não queria mais descer do barco para não ser convidada a tomar a “tal” e eu também não. Resolvi rejeitar, agradecendo e dizendo que já tinha bebido bastante nas casas anteriores que tinha visitado. Até que em uma das casas a filha do dono, chateada pegou o caneco com a chicha e jogou pela janela. À noite, nenhum membro daquela família estava presente no culto. Só então entendi que aquela rejeição foi uma ofensa para eles.
       2 – MATAR PIOLHO NO DENTE

Em um determinado lugar onde estávamos evangelizando, ao chegar na casa de uma pessoa, havia várias outras mulheres, sentadas uma atrás da outra, em forma de fila, catando a cabeça. A Rosinha leu a Bíblia e ministrou a Palavra enquanto aquelas mulheres continuavam o seu trabalho. No intuito de aliviar-se dos abundantes e “recheados” piolhos, os tiravam e os matavam entre os dentes. Minha esposa ficou horrorizada, porém, depois, observamos que aquilo era muito natural em toda a cidade, as amigas reuniam-se à frente de suas casas, principalmente à tarde, para catar a cabeça uma das outras.

3 –  URINAR NA PORTA DA CASA
            Certo dia, minha esposa teve que sair de casa às nove horas da manhã. Coitadinha, ela não sabia que o vizinho ainda não tinha terminado de urinar a porta da nossa casa e ao abrir, claro, molhou um pouco do seu sapato. Revoltada com a cena, correu para dentro de casa escandalizada com o procedimento do vizinho. Logo mais, a esposa do nosso vizinho, tão gentilmente, veio pedir desculpas em nome do marido, dizendo que ele não imaginava que ela ia sair tão cedo!
            Depois fomos observar que também aquilo era um procedimento muito normal na cidade, as mulheres também podiam fazer o mesmo na rua desde que houvesse necessidade, isto em alguns lugares ou vilarejos.
4 – COMER AO LADO DO DEFUNTO
Quando morria o chefe da família, se eram católicos chamavam o padre, se eram crentes chamavam o pastor para vir ao meio dia para um cerimonial que faz parte da sub-cultura de algumas regiões.
Uma grande mesa era posta ao lado do defunto (caixão) e a comida preferida do finado era preparada em abundância. O filho mais velho usava da palavra e convidava o líder religioso para sentar-se à cabeceira da mesa, exatamente no lugar usado pelo saudoso, a sua cadeira, o seu prato e a sua colher (se era frango, até mesmo o pedaço preferido do defunto). Nestas horas, não devem existir desculpas para não atender ao convite de comer juntamente com a família.
Sempre que tenho oportunidade de ministar sobre missões, tenho dito que Missão Transcultural é uma missão específica. Ninguém deve ir ao campo somente pelo fato de ser um obreiro ou pelo desejo de ser um missionário. Se já é um missionário, não pode ser remanejado tão somente por determinação ministerial. Ele continua necessitando de direção específica de Deus quanto ao novo campo missionário. Considero perigoso o chamado remanejamento missionário, sem saber previamente se o obreiro tem uma direção de Deus específica para aquele lugar. Porque não é somente chegar lá e pregar, é necessário uma assimilação cultural. Quando Deus envia para um determinado povo, não importa qual seja a sua cultura, Deus prepara e condiciona o obreiro, lhe dá capacidade para poder tomar a chicha mastigada e cuspida no tacho, para comer um prato cheio de galinha cozida sem colorante ao lado de um defunto, sentindo o mau cheiro do formol exalando, ou mesmo para comer cabeça de macaco assado.
                         5 - MACACO ASSADO

Todo aquele dia, tínhamos trabalhado em mutirão com um bom número de irmãos para construir uma congregação. No final da tarde, muito cansados, nos reunimos para o jantar. Não sabíamos qual era o menu, sabíamos, sim, que seria uma surpresa para nós. O cheiro estava muito convidativo, logo começaram a servir a mesa, os pratos já vinham “feitos” e por consideração e respeito, serviam em primeiro lugar o prato do pastor. Ao aproximar-me descobri a grande surpresa: o jantar era uma bela “macacada”. Aquelas queridas irmãs, com muito carinho e honrando o seu pastor, colocaram no meu prato a “melhor parte” os dois pedaços mais saborosos do macaco: a cabeça e o pé.  E agora, o que você faria em meu lugar?

             6 - O PALITO DE DENTE

Estávamos visitando uma de nossas congregações. Tivemos uma linda reunião, Jesus salvou e fez maravilhas naquele dia. O nosso hospedeiro era o dirigente da congregação. Sabendo ele de nossa visita, com antecedência foi caçar para conseguir carne. Matou uma grande anta trazendo assim carne em abundância.

Depois do jantar eu estava inquieto com um pedaço de carne entre os dentes e precisava urgente de um palito de dente. Como sabia que com certeza lá não havia, perguntei à irmã se podia me conseguir um palito de fósforo. Ela quis saber para quê. Ao dizer que era para palitar os dentes, imediatamente e  muito prestativa tomou uma vassoura que estava atrás da porta, a virou de cabeça pra baixo, quebrou uma daquelas “limpas” talinhas e gentilmente me entregou.  Que faria você?

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