quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

10º CAPÍTULO


TERÇA-FEIRA, 7 DE DEZEMBRO DE 2010

COISAS QUE ACONTECERAM!


1 - QUE APARÊNCIA FEIA!
         
         No primeiro culto que realizamos na localidade de São Luís, em um afluente do rio “Madre de Dios”. A escolinha estava cheia, veio gente de todo aquele centro para ouvir, pela primeira vez, um pastor. Começamos a reunião com cânticos, mensagens e quando fizemos o convite muitas pessoas vieram à frente, entre as quais uma jovem que chorava incontrolavelmente.

Quando esta jovem levantou-se, após a oração, um homem de aparência horrível, barbudo, cabeludo, sujo e mal encarado, puxou-a, pelos braços, para o quintal da escola e a espancou brutalmente. Passados alguns dias, retornamos para o segundo culto e aquele homem estava do lado de fora, dando voltas na frente do local do culto. Fiquei um pouco apreensivo, mas começamos o culto como de costume, e em seguida começamos a louvar ao Senhor com corinhos animados. Tínhamos bombo, acordeom, pandeiro, violão, charango (cavaquinho), triângulo e outros instrumentos improvisados que usam os bolivianos.

 A música fez com que o homem parasse em frente a escola, e os números especiais, cantados com unção para a glória do Senhor, fizeram com que ele se sentasse na ponta do banco, perto da porta. Quando pregamos a palavra, já o Espírito Santo o tinha segurado e ele não foi embora na hora do convite. Foi o primeiro a vir à frente entregar a sua vida a Jesus.
Deus mudou a vida deste homem, o libertou dos vícios, o batizou com o Espírito Santo e lhe deu dons maravilhosos. A sua aparência mudou, agora tinha a beleza de Cristo estampada no seu rosto. Foi dirigente de uma linda congregação que tivemos

2 - O QUARTO DE TATU ASSADO

Certo dia ao passar com a minha moto em frente a casa de um diácono da Igreja, observei que na porta de sua mercearia estava um monte de malas e sacos, sinal de uma mudança. Uma irmã casada há mais de 20 anos, estava chorando junto à sua bagagem esperando o ônibus, que já estava para passar. Parei a moto e fui ver o que estava acontecendo. Aquela irmã me relatou que depois de uma noite de briga, discussão e agressão, decidiu-se pela separação e estava indo a uma outra cidade para tentar a vida de alguma maneira.

A esta altura, o ônibus se aproximava e a irmã fez sinal para que parasse. Não me restava tempo para diálogo, então segurei a bolsa daquela irmã e ordenei ao motorista que proseguisse a sua viagem. Comecei a colocar a sua bagagem para dentro da casa; pedi ao esposo que fechasse a mercearia, reuni aqueles irmãos para conhecer as causas e buscar a reconciliação. Então descobri que o único motivo da briga e da decisão do rompimento daquela união, foi causada pela perda de um quarto de tatu assado que estava para vender na mercearia. Enquanto a irmã se descuidou, o cachorro do vizinho entrou e comeu.

Lemos a Biblia, os aconselhamos, então eles fizeram as pazes e juntos oramos agradecendo. Fui embora glorificando a Deus por mais uma luta vencida com Jesus.   

3 – O REBENGUE DO OUTRO DIÁCONO
                       
            Um casal precioso, bons cooperadores na obra de Deus, casados há algum tempo e com um filho. A curiosidade era que no corredor de sua casa havia um rebengue (chicote de couro de boi) pendurado em um lugar bem visível. Certo dia, minha esposa perguntou para aquele diácono de que servia aquele rebengue. Ele deu um sorriso e disse: “Este (o menor) é para corrigir o filho e este (o maior) para corrigir a minha esposa”. Passados alguns dias, aquela irmã mostrou para minha esposa o seu corpo com as marcas da “correção”. Depois de tomar conhecimento de que isto ocorria com muita frequência entre outros membros da Igreja, muito chocado com aquela descoberta, decidi reunir o ministério para falar sobre isso com todos os obreiros presentes, mencionei o que estava acontecendo. Logo um presbítero pediu a palavra, olhou para mim e com muita firmeza, sacudindo a cabeça em sinal de aprovação, disse: “Mas... serve, pastor!”
             
            Depois de alguns dias, estava em uma fila no posto de saúde e ouvi a conversa de duas senhoras, uma estava revoltada por ver o rosto de sua amiga inchado e roxo pelo murro que tinha levado de seu esposo. Ela dizia: “Isto me revolta…. Eu sei que os nossos maridos têm o direito de nos corrigir, porém que não bata no rosto, para isto temos as nádegas”  
           
            Ainda bem que temos um Deus que sabe solucionar os problemas e colocar a vitória em nossas mãos.


4- OS FRUTOS QUE FALTAVAM

            Foi  nessa cidade, Riberalta, que nasceram as nossas duas últimas filhas,Kézia Alessandra e Kareen Giovana.

O penúltimo parto de minha esposa, segundo o seu médico, não poderia ser normal, obrigatoriamente deveria ser uma cesariana. Porém o médico fez uma viagem de férias e passou a responsabilidade para o outro, que havia chegado  à cidade recentemente.
Minha esposa teve contrações e tivemos que procurar o médico, que infelizmente, estava completamente embriagado, sem nenhuma condição de fazer o parto. Como era emergência, foi socorrida por uma inexperiente senhora em nossa própria casa. A conseqüência foi uma infecção de alto nível e somente depois de alguns dias foi atendida pelo seu médico que já tinha voltado das férias. Deus na sua infinita misericórdia, o usou para salvar a  vida de minha esposa. Sem dúvidas, foi realmente  um grande milagre de Deus! Tanto a Rosa,  como a Kareen foram salvas pela infinita bondade do Senhor.
5 - TRIPA NO ALMOÇO, BUCHO NA JANTA

         Com a desvalorização da moeda brasileira, as coisas ficaram difíceis para nós na Bolívia. Obrigado pelas circunstâncias, algumas vezes saía de casa às cinco horas da manhã para ir ao matadouro esperar que o pessoal matasse  o gado e me desse as vísceras. Colocava em um saco do jeito que era tirado e levava nas costas.

Para não ser visto pelo povo da cidade, tomava um caminho por dentro da mata e saía exatamente no quintal de casa, jogava o saco por cima da cerca e em seguida juntamente com minha esposa, usando água do poço limpávamos a tripa e o bucho, coisa que nunca tínhamos visto fazer. Salgávamos e comíamos por vários dias até a provisão acabar novamente. E que “menu” delicioso!

6 - EU NÃO QUERIA QUE ELE SOUBESSE QUE EU ERA PASTOR!
        
         O nosso dinheiro estava muito atrasado; já tinha feito várias viagens à fronteira para ver se recebia, e nada. Depois de uma semana, consegui um dinheiro para comprar o combustível para a moto, viajei os 90 km que separam Riberalta da fronteira, Guajará Mirim. Infelizmente, ao chegar lá e perguntar ao caixa do banco sobre a minha remessa, ele, após a pesquisa, sacudiu a cabeça indicando que ainda não havia chegado.

Muito triste, tomei a famosa “catraia” (barco de travessia) e claro, atravessei o rio Mamoré que separa os dois países, Bolívia e Brasil. Tomei a minha moto muito preocupado, sem saber se o combustível seria suficiente para chegar em casa. Comecei a pensar que ao chegar, minha esposa esperava o leite das crianças e o mais básico, pois não havia absolutamente nada dentro de casa. Já via na minha mente o seu semblante caído pelo desapontamento.

Quando faltavam 50 km para chegar, um homem que estava à margem da estrada com um grande saco de castanha, pensando que eu era um taxista, fez sinal (naquela região, os táxis eram motos). Parei, carreguei aquele enorme saco de castanhas e coloquei-o sobre o tanque, tive muita dificuldade para conduzir com aquele enorme volume. O homem subiu na garupa, puxou o cigarro, acendeu e durante todo o trajeto fumava.

Eu não falava uma palavra; não queria que ele soubesse que era o pastor da Igreja da cidade, queria passar como taxista e já pensava até quanto iria cobrar. Estava alegre porque ia chegar com algum dinheiro no bolso para suprir parte das nossas necessidades. Depois de andar por lugares feios, com muita lama, conseqüentemente com muito perigo de cair, finalmente entramos na cidade e aquele homem começou orientar-me ao lugar onde iria ficar. Enfim, chegamos ao lugar. O homem desceu da moto e eu tirei o saco de castanhas do tanque. Porém, no momento em que me abaixei para colocar o saco de castanhas no chão, o meu boné caiu e o homem olhou bem para mim e disse: “Mas, você é o pastor daquela Igreja! Pastorzinho, muito obrigado! Qualquer dia eu dou uma passada por lá!”.
           
            Tive que voltar para casa da mesma maneira. Deus quis mostrar, uma vez mais,  que Ele  não precisa de ajuda. Se Ele envia alguém, então suprirá as suas necessidades, segundo a sua maneira.
7 - AS DIFICULDADES NA NAVEGAÇÃO

         O rio “Madre de Dios” e rio Beni, são afluentes do Mamoré. São rios que durante o inverno transbordam com uma correnteza muito grande. Em alguns trechos os barcos de pouca cavalagem (potência) têm grandes dificuldades de romper as forças das águas.
           
            Por outro lado, a forte correnteza, arranca grandes árvores, toras de madeira e troncos e leva rio abaixo, colocando em grande perigo a navegação.
           
            Em uma de nossas viagens de atendimento ao campo. Viajávamos com cuidado, porém de repente chocamos com um tronco de árvore preso ao leito do rio. O barco quase virava, o  impacto maior foi na própia hélice do motor. Depois do choque, o barco não conseguia mais vencer a forte correnteza e começou a vibrar, por haver empenado a hélice. Agora, que fazer? Não podia parar o mortor, porque o barco desceria à deriva e seria um perigo eminente. Não havia uma praia sequer para ancorar, e com muita dificuldade  tivemos que encostar em um barranco muito alto, em uma correnteza que fazia medo a qualquer experto em navegação.

            Eu tinha uma hélice nova de reposição, porém como trocar se não havia onde se pudesse tomar pé. O lugar era infestado de “pium” ou (borrachudo) não sei se todos sabem o que é este terrível inseto, muito comum na região amazônica. Um bichinho bem pequenino que cobre o corpo  e pica deixando um coceira quase que insuportável. Aqueles que não estão acostumados têm até febre. Não tinha alternativa, se não me amarrar com uma corda e lançar-me à forte correnteza com a ferramenta nas  mãos para froxar a porca, tirar a chaveta e logo a hélice e fazer o câmbio,tudo isso sem tomar pé, e  mergulhando, pois a hélice estava à um 1.30 m. de profundidade.

            Louvo a Deus pela saúde, coragem e resistência que tínhamos naquela época. Agradeço, porque Ele nos guardou, e  nos protegeu  afim de que pudéssemos cumprir a nossa carreira e o ministério que recebemos do Senhor, para desempenhar naquele País.

8 - A AVIONETA DEU CAMBALHOTA  NO AR


            Fomos convidados para realizar uma campanha evangelística na cidade  de San Ramom- Beni. O pastor daquela Igreja era Felipe Sinuyre, meu filho na fé. (página 97) O pastor Ezequias Vaz, missionário recém-chegado de Belém do Pará, me acompanhou naquele trabalho.

O único meio de transporte seria o avião da FAB (Força Aérea Boliviana) que uma vez  por semana fazia uma linha atendendo a grande necessidade na área de transporte.
           
            Depois de uma semana de intensa atividade evangelística, com resultados maravilhosos, queríamos, e precisávamos retornar a Riberalta a cidade que trabalhávamos. Porém o dito avião da FAB, não vinha, pois estava “quebrado” e não havia substituto para ele. Então o pastor Felipe, cheio de boa vontade, decidiu alugar uma avioneta para nos levar a Trinidad (50 minutos de vôo).
            Fomos a uma fazenda próxima, e a viúva proprietária possuía três avionetas, porém duas estavam com viagem programadas para aquele dia. Restava uma outra, a mais velhinha. O pastor acertou o preço, e logo tratamos de entrar, usando uma escada de madeira. Quando pisei no terceiro degrau a escada quebrou e eu cai machucando-me na fuselagem da velha avioneta. Por fim, conseguimos subir. Observamos que só havia dois bancos na frente, um para o piloto e o outro para o passageiro mais pesado.
 Apareceram mais dois passageiros, sendo que um pesava quase 100 kilos, então ele foi o privilegiado para sentar no banco ao lado do piloto. Eu, o pastor Ezequias e uma senhora, viajamos  atrás. Sem poltronas, sem cinto de segurança e sem nenhuma comodidade. Assentamos-nos encima das maletas e segurávamos onde podíamos. Quando fomos fechar a porta observamos que a fechadura era um ferrolho daquele que usamos nos portões pequenos. Apenas uma pontinha do trinco segurava a porta. Não havia borracha de vedação na porta, ali estava uma brecha de  uns dois centímetros. O barulho causado pela entrada de ar era muito grande, se podia ver tudo o que estava em  baixo pela abertura da porta que por sinal, estava bem ao meu lado.
           
            O pior de tudo é que quando o piloto quis funcionar, a bateria não teve força para arrancar o motor. Tiveram que trazer um trator velho, e fizeram a famosa “chupeta”, ou seja, uma ligação à bateria do trator para fazer funcionar o nono-motor da avioneta. Imaginem o nosso estado de nervos! Finalmente levantamos vôo. A sensação que nós tínhamos é que a “bichinha” parecia que ia quebrar as asas, depois melhorou um pouco. Parece-me que o piloto era principiante, ou mesmo irresponsável, ele subiu demasiadamente, além do permitido para aquele tipo de avião. A senhora que ia conosco, era esposa de um fazendeiro que também tinha esse tipo de avioneta, e  vinha reclamando.
           
            De repente, a coisa começou a piorar. Surgiram blocos de nuvens compactas, ele ia desviando de um lado para outro, cada vez que chocávamos com um daqueles blocos parecia que ia quebrar tudo. Inesperadamente, chocamos de frente  com um daqueles blocos, e a avioneta deslisou, subiu verticalmente e logo virou de cabeça para baixo e desceu também de forma vertical rumo a floresta. Nesta altura, nós os três passageiros que estávamos atrás, ficamos embolados um em cima do outro, misturados com as malas etc. eu, estava com o pescoço torcido, o meu companheiro quase morria de susto. A senhora, coitada! Estava em situação muito delicada.
            Porém uma vez mais Deus usou de misericórdia para conosco> Quando estávamos bem próximo a vegetação, Deus interferiu. Ele colocou a sua mão e planou aquela avioneta. O piloto estava completamente perdido, a nossa salvação foi realmente um milagre de Deus.

            Quando a avioneta de equilibrou, o piloto estava pálido e tremia de forma assustadora. Ele admitiu o seu erro depois que foi exortado pela passageira que nos acompanhava. Aquela senhora era esposa de um fazendeiro e também ela tinha brevê e pilotava aquele tipo de avião. Finalmente, com mais alguns minutos sobrevoávamos o aeroporto de Trinidad, a capital do Beni. Só então que fomos descobrir outra coisa: O rádio de comunicação não funcionava. Então ele deu algumas voltas junto a torre, abriu a janelinha e mostrava um espelho para a torre, e de la recebeu a resposta através de outro espelho que podia aterrizar! Assim era naquela região da Bolívia!!!

            Quando aterrizamos, nem bem descemos, eu e meu companheiro, vomitamos muito, o  Pr. Ezequias Vaz quase desmaia. Louvamos a Deus porque Ele nos guardou com vida!

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