quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

12º CAPÍTULO




TERÇA-FEIRA, 7 DE DEZEMBRO DE 2010

AO OUTRO EXTREMO DO PAIS

Depois de cinco anos em Riberalta, deixamos o trabalho com o pastor Ezequias Vaz, missionário recém chegado de Belém do Pará, e fomos para a cidade de Yacuiba, departamento de Tarija, fronteira com a Argentina.

Naquela cidade começamos um trabalho. Com três meses já tínhamos um lindo grupo, a Escola Dominical bem concorrida, tudo ia muito bem. Ali Jesus curou milagrosamente a minha filha Kareen de uma broncopneumonia; ela estava muito mal e não tínhamos recursos para levá-la ao médico. Certo dia vendo que piorava cada vez mais, saí por toda a cidade, querendo vender ou penhorar uma máquina fotográfica, mas as pessoas tinham dúvidas da procedência da máquina e por isso ninguém me ajudava.

Finalmente alguém me emprestou um dinheiro para comprar o remédio, eu já não sabia o que fazer. Quando me aproximei de casa com a compra que havia feito na farmácia da cidade, o Kleber, que ainda era bem pequeno, correu ao meu encontro e disse: “ Pai, Deus fez um milagre! Enquanto a mãe orava pela mana Jesus a curou, depois ela abriu os olhos, começou a rir e logo quis mamar”. Glória a Deus! Fiquei tão feliz com a notícia que joguei fora o remédio, corri para casa para, juntamente com minha esposa, agradecermos a Deus.

            2- CAMIRI A CAPITAL PETROLERA DA BOLIVIA

O nosso desejo era continuar em Yacuiba, só que ao chegarmos na Convenção realizada em Santa Cruz de La Sierra, na primeira seção, se apresentou um senhor que já era crente juntamente com toda a sua família,  procedentes de Camiri, fazendo um apelo, em nome de Jesus, para que aquela Convenção enviasse um obreiro à sua cidade. Enquanto ele falava, Deus me disse: “Tu és o homem a quem vou usar naquela cidade”.

Quando terminou a reunião, todos olharam para mim e disseram: “Nós sentimos que você é o homem que deve ir para Camiri”. A tarde, fomos chamados pela diretoria da Convenção e nos consultaram se estávamos decididos a transladar-nos para Camiri. A resposta foi positiva, pois Deus já havia tratado primeiro comigo. O grupo de Yacuiba ficou aos cuidados de um pastor argentino chamado Lálo, um precioso servo de Deus.
           
            Louvamos a Deus por tudo o que Ele fez naquela montanhosa cidade de Camiri; pelo lindo templo que foi construído na avenida de acesso à cidade, pelo grande número de pessoas que foram salvas e pelo que Deus fez através do programa radiofônico “Encuentro con Dios”, levado ao ar todos os dias às 18 horas. Agradecemos a Deus pelo nosso substituto naquela cidade, pastor Miguel Guerreiro, também missionário procedente da  Igreja em Belém , e que até hoje permanece ali.

TEMPLO QUE CONSTRUIMOS NA CIDADE DE CAMIRI

3-  A CABEÇA DA MINHA FILHA AMASSOU O TANQUE DA MOTO

Quando a minha filha Kelly regressava da escola, foi atropelada por uma moto. Teve vários ferimentos na cabeça e em outras partes do corpo. Nessa cidade não havia pronto socorro do Estado; o único hospital era da grande empresa petroleira da cidade. Corremos com ela nos braços, em busca de socorro, porém para ser atendida naquele hospital era necessário fazer um deposito bem elevado.

Deixei minha esposa na porta do hospital com a menina chorando em seus braços e saí em busca de alguém que pudesse ajudar-nos. Como estávamos há pouco tempo naquela cidade o nosso conhecimento era ainda muito limitado. Regressei ao hospital sem o dinheiro, estávamos desesperados e não víamos solução alguma. De repente passou a esposa do diretor do hospital que havia sido aluna de minha esposa em um curso de pintura em tecido. Essa senhora foi o instrumento que Deus  usou para nos socorrer naquela circunstância.

A minha filha foi levada rapidamente à enfermaria. Depois de ser atendida pelo médico, a enfermeira nos deu o resultado dizendo que a menina deveria ficar internada por alguns dias em observação. Enquanto ela falava, chegou a polícia juntamente com o rapaz da moto exigindo que assumíssemos a responsabilidade de indenizá-lo, pois a minha filha tinha  achatado o  tanque da moto com a sua cabeça.

Tudo isto porque éramos estrangeiros. Um missionário precisa estar preparado para receber injustiças como esta.

4– “EL TREN DEL PASTOR”

            Minha esposa foi ao Brasil para um tratamento de saúde e aproveitou para participar de uma reunião da ADONEP em Belém, na qual o pastor Geziel Gomes foi o orador. Minha esposa falou a ele a necessidade que tínhamos de adquirirmos uma moto para  ser usada no trabalho. O pastor Geziel, impulsionado pelo amor à Obra Missionária, tomou a palavra naquela reunião da ADONEP e fez um grande movimento. Dentro de pouco tempo, tínhamos o dinheiro exato para comprarmos uma moto nova.

Compramos uma Jawa 250cc. mas não tínhamos o dinheiro para colocar a placa, ou seja, legalizar. Colocamos uma grande “parrilha”(bagageiro ou garupa de ferro), para que houvesse espaço para toda a família. Andávamos os seis naquela moto. Quando íamos aos cultos, minha esposa levava, sobre as pernas, a sua acordeon de 120 baixos, o Kleber levava o seu “bombo” (bumbo ou tambor), a Kelly o seu pandeiro e as meninas, Kézia e Kareen, que ainda eram pequenas, iam sentadas no tanque da moto, cada uma com uma boneca. O povo dizia: “Lá vem o trem  do pastor”. Certa vez, o  delegado de polícia me disse: “Pastor, além da sua moto não ter placa,  você ainda carrega toda sua família! Isso não é permitido”. Infelizmente, as circunstâncias nos levaram a vários vexames! Porém, Deus nos guardou e nunca tivemos acidente.


5- O DIA DA “VIRGEM DE URKUPINHA”

            Virgem de Urkupinha, é um ídolo muito conhecido na Bolívia, e era a padroeira daquela cidade de Camiri. O  povo tinha respeito e grande devoção por aquele ídolo. A festa durava toda a semana, a cidade era enfeitada com grandes arcos e altares nas principais ruas e avenidas. Mesas com variedades de comidas e bebidas eram servidas nas ruas para todos os que quisessem. Variedades de doces e tortas a vontade, quer queira ou não teríamos que passar por aqueles arcos, apenas podíamos evitar de comer a comida e bebidas que eles ofereciam.

            No dia maior da festa o Domingo, eu teria que gravar o programa radiofônico que fazia todos os dias da semana. Todos os que trabalham neste ministério sabem que não é fácil pastorear uma igreja com 200 membros aproximadamente e fazer um programa diário ao vivo de 60 minutos sem colaboradores preparados. Claro, para facilitar, na maioria dos programas usava mensagens “enlatadas,” mantinha contato com várias organizações radiofônicas de diferentes países e recebia centenas de lindas mensagens para diferentes ocasiões com temas variados, e eu procurava me identificar com aquelas mensagens e o fazia muito bem.

            Porém naquele inesquecível dia de Domingo às 14 horas, entrei no estúdio que tinha adaptado precariamente anexo ao templo e comecei a gravar o programa. Quando chegou a hora de incluir a mensagem, estava tão preocupado, queria fazer o melhor naquele dia de grande paganismo daquele povo. Li mais de duas dezenas de mensagens e não tinha paz, estava inseguro! As horas estavam passando e antes das 18h teria que entregar a fita gravada com o programa na emissora de rádio, entrei em desespero, já tinha orado para saber qual daquelas mensagens deveria pregar naquela tarde. O Espírito Santo falou ao meu coração! “Ora a Deus para saber o que tu dever falar hoje” No instante, joguei o monte de mensagens inscritas que tinha nas mãos, e dobrei os meus joelhos, primeiro pedi a Deus perdão pela forma invertida como eu estava procedendo, depois pedi a Deus que me revela-se a sua vontade, o que aquele povo precisava ouvir naquela tarde. Deus me ouviu, e no momento me revelou através de uma visão  a  mensagem que deveria pregar. Tomei o microfone  e não precisei nem ler a Bíblia. Diante dos meus olhos estava uma tela azulada com o texto bíblico, que foi o Salmo 115, o tema, as divisões em tópicos, os versículos de concordância tudo transcrito, preguei uma mensagem diretamente contra a idolatria daquele povo, quando terminei me sentia como um gigante na presença de Deus. Entreguei a fita gravada e quando cheguei em casa que contei a minha esposa ela ficou muito preocupada, temia uma reação do povo contra nós pelo fato de sermos estrangeiros.

No dia seguinte, a moça que trabalhava na rádio me contou o que aconteceu. Logo que começou a mensagem, onde eu falava diretamente condenando a prática da idolatria, mencionando o nome do ídolo, e mostrando o que diz o Salmo 115, Isaías 44 e outras referências, desafiava o povo para ler na própria Bíblia Católica os textos. Conclusão: quando a moça começou a ouvir, chamou o diretor da rádio e perguntou se podia interromper a “loucura” do pastor quanto a Virgem de Urkupinha. O diretor disse: “O pastor é de maior, e ele responde pelos seus próprios atos”.  Logo começou uma série de telefonemas para a rádio, todos queriam saber quem era aquele pastor, onde era  a sua igreja etc. e diziam mais: Este homem fala a verdade!!! Nós estamos com a Bíblia aberta, é verdade! No dia seguinte quando eu passava pelas ruas, as pessoas me abordavam para saudar-me e parabenizar pelas duras verdades e prometer uma visita à igreja. Por mais de um  ano fazia aquele programa, pregava lindas mensagens porém ninguém telefonava, não impactava, ninguém me parava nas ruas. Aquelas lindas mensagens escritas que vinha pregando, um dia elas foram dadas por Deus, através daquele instrumento, para aquele povo, para aquela cultura, para aquela necessidade, para aquele dia. Deus me fez consciente de que de que cada dia que fosse pregar, no rádio ou no púlpito de uma igreja, era necessário primeiro orar para receber a mensagem de Deus para aquele dia, aquele auditório, àquelas pessoas.

            A mensagem daquele Domingo, o grande dia da festa de Urkupinha trouxe uma grande repercussão na cidade de Camiri, motivando a curiosidade do povo com respeito ao Evangelho, e uma grande e inesquecível  lição para mim.
           
                                           6- O MENÚ PARA OS VISITANTES
O pastor Ezequias Vaz que me substituiu em Riberalta, certo dia resolveu nos fazer uma surpresa. Pegou um avião juntamente com sua esposa e vieram para passar uma semana conosco em Camiri. Como as suas finanças também não estavam tão boas, vieram somente com as passagens de regresso. Graças a Deus, pouco antes deles chegarem havíamos conseguido comprar uns 5 kg de pé de frango. O cardápio da semana era bem variado: pé de galinha no almoço e pé de frango na janta. Felizmente, no quintal de casa, havia cinco pés de uva, carregados de frutos maduros que o Senhor preparou porque sabia que iríamos precisar de uma boa sobremesa todos os dias. Deus não deixa faltar nada, Ele dá sempre aquilo que precisamos, no momento exato.

7 - “AS CAMPINAS VERDEJANTES DO JORDÃO!”

            Tínhamos passado mais quatro anos na Bolívia e já se aproximava o início das nossas férias. Quando chegamos no Pará (Brasil), vimos que todos os nossos colegas do mesmo tempo de ministério, estavam muito bem economicamente, com suas casas, seus bons carros, grandes Igrejas, boa aparência, etc. Comecei a pensar: Nós tinhamos casa no Brasil e vendemos, o carro que temos na Bolívia é uma Rural Willys que está muito arruinada, não temos um terreno, não temos nada de valor”. Ao analisar a nossa  situação, achei que a  missão na Bolívia havia terminado.

Cheguei ao pastor Firmino, lhe fiz uma exposição de motivos  e manifestei o meu desejo de ficar no Brasil. Ele me disse: “Vamos ver se Deus abre uma porta, uma Igreja, para que vocês fiquem aqui no Pará.”

Nesses dias, Deus nos deu um terreno e uma casa em Belém, fomos a uma loja e compramos os móveis da sala à cozinha, segundo o gosto da “Dona Rosa”. Estávamos felizes com as coisas que nunca havíamos tido (devido às viagens e deslocamentos). Que alegria era ter tudo novo e bonito.

Surgiu a primeira Igreja. A expectativa era grande, porém Deus começou a usar os pastores da Igreja para dizer-me que sentiam que ainda não era tempo de sair da Bolívia. O Secretário de missões (Coronel Simeão Silva), me chamou e disse: “ Nós estamos preocupados com a sua decisão. Deus tem honrado o seu ministério na obra missionária. Caso o irmão queira sair da Bolívia, escolha qualquer outro país e nós o poiaremos”. Eu disse: Escolho o Brasil.

A partir desse momento Deus não nos deixou em paz. Para onde íamos Ele falava comigo de diferentes maneiras. Os dias de minhas férias estavam terminando, presto deveria assumir o pastorado de uma Igreja local. Um certo dia, estávamos visitando um casal de amigos quando  chegou uma irmã que não nos conhecia, mas que era enviada por Deus. Fizemos uma oração e enquanto orávamos Deus a usou com uma tremenda autoridade, para dizer-nos: “Fui eu quem os levou àquele país. Quando terminar o vosso tempo vos trarei com mão forte. Quanto às vossas necessidades, Eu as suprirei. Vão e Eu irei adiante de vós abrindo as portas e fazendo milagres. Coisas que vocês nunca viram, verão”.

Diante daquela mensagem, me rendi uma vez mais ao meu Senhor, lhe pedi perdão e juntamente com minha esposa e filhos nos colocamos à Sua disposição.

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